O "voluntarismo mágico" — a crença de que está ao alcance de qualquer indivíduo vir a ser o que quiser — é a ideologia dominante e a religião não oficial da sociedade contemporânea, propagada tanto por "especialistas" de reality shows e gurus do mundo empresarial como por políticos.
Devemos compreender a submissão fatalista da população do Reino Unido à austeridade como consequência de uma depressão deliberadamente cultivada.
É no seu livro The Origins of Unhappiness – A New Understanding of Personal Distress, que David Smail aborda o problema da centralidade da questão do poder nas marcas de classe que aparecem como sendo indeléveis, mas que não o são. Segundo ele, para aqueles que desde tenra idade são ensinados a pensarem-se a si próprios como seres inferiores, nem mesmo a aquisição de qualificações ou riqueza raramente será suficiente para apagar – quer nas suas mentes como na dos demais – a sensação primordial de inutilidade que os marca desde o início.
Mark Fisher vai pegar nesta ideia e, com base no seu caso pessoal, apresenta a tese na qual vê a depressão como sintoma estrutural do capitalismo atual. Ouçamo-lo no seu artigo de março de 2014, “Good For Nothing” (Bom para nada):
“Sofro de depressão de forma intermitente desde a adolescência. Alguns desses episódios foram extremamente debilitantes, resultando em automutilação, isolamento (passava meses a fio no meu quarto, saindo apenas para comparecer a compromissos burocráticos obrigatórios ou para comprar a quantidade mínima de comida que consumia) e internamentos em alas psiquiátricas.
Não diria que me curei, mas fico feliz por dizer que tanto a frequência como a gravidade dos episódios depressivos diminuíram consideravelmente nos últimos anos. Isto deve-se, em parte, a mudanças na minha situação de vida, mas também ao facto de ter passado a compreender de outra forma a minha depressão e as suas causas.
Relato as minhas próprias experiências de sofrimento mental não por achar que têm algo de especial ou único, mas para apoiar a ideia de que muitas formas de depressão são mais bem compreendidas — e combatidas — por meio de perspetivas impessoais e políticas, em vez de individuais e "psicológicas".
Escrever sobre a própria depressão é difícil. A depressão é constituída, em parte, por uma voz "interior" sarcástica que o acusa de autocomplacência — "não está deprimido, está apenas com pena de si próprio; reaja" — e essa voz tende a ser despertada quando se fala publicamente sobre a condição. É claro que esta voz não é, de facto, uma voz "interior"; ela é a expressão interiorizada de forças sociais reais, algumas das quais têm um interesse direto em negar qualquer ligação entre a depressão e a política.
A minha depressão esteve sempre ligada à convicção de que eu era, literalmente, um inútil. Passei a maior parte da minha vida, até aos trinta anos, a acreditar que nunca trabalharia. Na casa dos vinte anos, oscilei entre a pós-graduação, os períodos de desemprego e os empregos temporários.
Em cada uma destas situações, sentia que não pertencia verdadeiramente àquele meio: na pós-graduação, porque eu era um diletante que tinha conseguido avançar na base da farsa, e não um verdadeiro académico; no desemprego, porque não estava de facto desempregado — como aqueles que procuravam trabalho honestamente —, mas sim fugindo às minhas obrigações; e nos trabalhos temporários, porque sentia que o meu desempenho era incompetente e, de qualquer modo, não me via naquele ambiente de escritório ou de fábrica — não por me achar "demasiado bom" para eles, mas, muito pelo contrário, por ter demasiada instrução e ser inútil, ocupando o lugar de alguém que precisava e merecia aquele trabalho mais do que eu. Mesmo quando estive internado numa ala psiquiátrica, sentia que não estava realmente deprimido — que apenas simulava a condição para evitar o trabalho ou, seguindo a lógica infernalmente paradoxal da depressão, que a simulava para ocultar o facto de ser incapaz de trabalhar e de não haver lugar algum para mim na sociedade.
Quando finalmente consegui um emprego como professor numa instituição de ensino superior, senti-me eufórico durante algum tempo; contudo, a própria natureza dessa euforia revelava que eu não havia superado os sentimentos de desvalia que, em breve, levariam a novos períodos de depressão. Faltava-me a confiança serena de quem nasceu para aquele papel. A um nível não muito profundo, eu evidentemente ainda não acreditava ser o tipo de pessoa capaz de exercer uma profissão como a docência.
Mas de onde vinha esta crença? A corrente de pensamento dominante na psiquiatria situa as origens de tais "crenças" num desequilíbrio da química cerebral, a corrigir através de medicamentos; A psicanálise e as formas de terapia por ela influenciadas procuram, como é sabido, as raízes do sofrimento mental no historial familiar, enquanto a Terapia Cognitivo-Comportamental está menos interessada em localizar a origem das crenças negativas do que em simplesmente substituí-las por um conjunto de narrativas positivas.
Não se trata de estes modelos serem totalmente falsos; o facto é que deixam escapar — e deixam necessariamente escapar — a causa mais provável de tais sentimentos de inferioridade: o poder social.
A forma de poder social que mais me afetou foi o poder de classe, embora, naturalmente, o género, a raça e outras formas de opressão também atuem gerando a mesma sensação de inferioridade ontológica — a qual se expressa da melhor maneira exatamente no pensamento que articulei acima: a ideia de que não se é o tipo de pessoa capaz de desempenhar papéis reservados ao grupo dominante. […]
[…] Há já algum tempo que uma das táticas mais bem-sucedidas da classe dominante tem sido a responsabilização individual. Cada membro da classe subordinada é encorajado a sentir que a sua pobreza, falta de oportunidades ou desemprego são culpa exclusiva sua. Os indivíduos tendem a culpar-se a si próprios em vez das estruturas sociais — estruturas cuja própria existência foram levados a desacreditar (vistas apenas como desculpas utilizadas pelos fracos).
Aquilo a que Smail chama "voluntarismo mágico" — a crença de que está ao alcance de qualquer indivíduo vir a ser o que quiser — é a ideologia dominante e a religião não oficial da sociedade capitalista contemporânea, propagada tanto por "especialistas" de reality shows e gurus do mundo empresarial como por políticos.
O voluntarismo mágico é, ao mesmo tempo, causa e efeito do nível historicamente baixo de consciência de classe que vivemos hoje. É o reverso da moeda da depressão — cuja convicção subjacente é a de que somos os únicos responsáveis pela nossa própria miséria e, por isso, merecemo-la. Um dilema cruel é atualmente imposto aos desempregados de longa duração no Reino Unido: uma população que, toda a vida, ouviu dizer que não serve para nada é, simultaneamente, informada de que pode fazer o que bem entender.
Devemos compreender a submissão fatalista da população do Reino Unido à austeridade como consequência de uma depressão deliberadamente cultivada. Esta depressão manifesta-se na aceitação de que as coisas vão piorar (para todos, exceto para uma pequena elite), de que temos sorte apenas por termos um emprego (e, portanto, não devemos esperar que os salários acompanhem a inflação) e de que não temos condições para suportar a provisão coletiva do Estado-Providência.
A depressão coletiva é o resultado do projeto de ressubordinação da classe dominante. Há já algum tempo que aceitamos cada vez mais a ideia de que não somos o tipo de pessoa capaz de agir. Isto não é uma falha de vontade, tal como uma pessoa deprimida não consegue simplesmente "sair disto" apenas "arregaçando as mangas".
A reconstrução da consciência de classe é, de facto, uma tarefa monumental, que não pode ser realizada recorrendo a soluções feitas; mas, apesar do que nos diz a nossa depressão coletiva, é possível concretizá-la. Inventar novas formas de envolvimento político, revitalizar instituições que entraram em decadência, converter o descontentamento privatizado em indignação politizada: tudo isto pode acontecer e, quando acontece, quem sabe o que é possível?”