Os Tempos em que Vivemos

Porque o fim seja do que for já não nos incomoda?

É mais fácil imaginar-se o fim do mundo que o fim do capitalismo, Jameson/Zizek.

 

Simplesmente trato de não pensar nisso.

 

 

 

A primeira página do imperdível ensaio de 2009 do filósofo inglês Mark Fisher, intitulado  Capitalism Realism: Is There No Alternative?, começa assim:

 

“Numa das cenas mais importantes do filme de Alfonso Cuarón de 2006, Children of men, a personagem de Clive Owen, Theo, vai visitar um amigo na estação elétrica de Battersea, reconvertida numa mistura de edifício governamental e coleção de arte privada. Neste edifício, que em si mesmo é um artefacto patrimonial reciclado, preservam-se tesouros como o David de Miguel Ângelo, a Guernica de Picasso e o porco insuflável de Pink Floyd. É o único momento da película em que podemos entrever a vida da elite social, que se refugia da catástrofe produzida pela esterilidade massiva: ao longo de uma geração inteira, nem uma só criança nascera. Theo pergunta então: ‘para que importam todas estas coisas se em breve ninguém as poderá ver?’. Não existe a possibilidade de gerações futuras, já que não há nenhuma à vista. A resposta que recebe do seu amigo é uma demonstração de hedonismo niilista: ‘Simplesmente trato de não pensar nisso’.

O que tem de particular a distopia de Children of men é ela ser específica do capitalismo tardio. Não estamos aqui ante um totalitarismo convencional já rotineiro nas distopias cinematográficas ao estilo do V de Vendetta, de James McTeigue (2005). Na novela de P.D. James em que o filme se baseia, o sistema de governo democrático já foi deixado para trás e é um Guarda que assume o controle do país por força própria. Contudo, prudentemente, Cuarón deixa tudo isto para segundo plano. A película faz-nos crer que o autoritarismo dominante poderia talvez ter sido implementado por uma estrutura política que continua a ser formalmente democrática. A Guerra contra o Terror já nos tinha preparado para esse desfecho: a normalização de uma crise deriva de uma situação em que resulta impensável fazer-se marcha atrás com as medidas que se tomaram por ocasião de uma emergência. (É então quando nos perguntamos: ‘Quando terminará a guerra?’.)

Ao ver-mos Children of men, recordamos inevitavelmente a frase atribuída quer a Fredric Jameson quer a Slavoj Zizek: ‘é mais fácil imaginar-se o fim do mundo que o fim do capitalismo’. A recordação recolhe com exatidão o que entendo ser o ‘realismo capitalista’: a ideia muito difundida de que o capitalismo é não só o único sistema económico viável, como ainda também é impossível imaginar-lhe uma alternativa. Por vezes, as películas e novelas distópicas imaginaram alternativas desta índole: representavam desastres e calamidades que serviam de pretexto narrativo para a emergência de formas de vida diferentes. Não é o que ocorre em Children of men. O mundo que o filme projeta, mais que uma alternativa, parece uma extrapolação ou exacerbação do nosso próprio mundo. Nesse mundo, como no nosso, o ultra-autoritarismo e o capital não são de maneira nenhuma incompatíveis: os campos de concentração e as cadeias de cafés coexistem perfeitamente. O mundo de Children of men é um mundo no qual o espaço público foi abandonado, cedido ao lixo que se amontoa sem recolher nas ruas e aos animais selvagens. Os neoliberais, realistas capitalistas por excelência, têm celebrado a destruição do espaço público ainda que, contrariamente ao que propõem como seu programa político, não se possa sentir uma retomada do Estado no Children of men, apenas uma reorientação para duas das suas dimensões básicas, a policial e a militar. (E refiro-me ao que os neoliberais consideram de ‘forma oficial’ o seu programa, porque desde os seus começos o neoliberalismo dependeu sempre em segredo do Estado, mesmo considerando que ideologicamente tal seja capaz de o enojar. Este discurso dúplice foi espetacularmente posto em evidência durante a crise financeira de 2008, quando por convite dos ideólogos neoliberais o Estado se apressou a manter o sistema bancário a flutuar).

A catástrofe na Children of men não é iminente nem é algo que já tenha acontecido. Mas vai-se-a vivendo ao mesmo tempo que decorre. O desastre não tem um momento pontual. O mundo não termina com um golpe seco: vai-se antes extinguindo, desmembrando-se gradualmente, deslisando num cataclismo lento. As causas da catástrofe, quem as sabe … poder-se-iam encontrar no passado remoto, tão dissociadas do presente como para parecer o capricho de um ser maligno, uma espécie de milagre maligno, uma maldição que nenhuma penitência pode aliviar. A peste da infertilidade só poderia resolver-se com uma intervenção externa não menos previsível ou evidente que as suas mesmas causas. Por esta razão, toda ação é algo supérflua desde o começo: só a esperança sem sentido parece ter sentido. Proliferam então a superstição e a religião, os primeiros recursos do desamparado.”

 

Mais adiante, e ainda no capítulo 1, Fisher avança com uma parte da explicação:

 

“A tradição perde sentido uma vez que nada a desafia ou modifica […] (e isto porque) o esgotamento do novo priva-nos até do passado. Uma cultura que só preserva não é cultura em absoluto.

É exemplar o destino da Guernica de Picasso no filme: houve tempo em que foi um aviso cheio de angústia frente ás atrocidades e aos ultrajes fascistas; agora não passa de de uma coisa pendurada na parede. Como a estação de Battersea em que se encontra instalada, a pintura tem um reconhecido estatuto icónico só porque lhe foi extirpada toda a possível função ou contexto. Um objeto cultural perde o seu poder uma vez que não hajam olhos novos que o possam ver.

E não necessitamos de esperar que ocorra o apocalipse iminente de Children of men para reconhecer esta transformação da cultura em peças de museu na nossa vida real. O poder do realismo capitalista deriva parcialmente da forma com que o capitalismo subsume e consome todas as histórias prévias. Este é um efeito do seu ‘sistema de equivalência geral’, capaz de atribuir valor monetário a todos os objetos culturais, quer falemos de iconografia religiosa, de pornografia ou de O capital de Marx. Passeando pelas salas do Museu britânico, encontramo-nos com objetos que foram retirados dos seus mundos vitais e rearranjados como para a coberta da uma nave espacial da saga Predator: uma imagem muito viva do sistema de equivalência geral. Através da conversão geral de práticas e rituais em objetos meramente estéticos, as crenças das culturas prévias ficam-se assim objetivamente ironizadas, transformadas em artefactos. Por isso, o realismo capitalista não é um tipo particular de realismo; é antes o realismo em si mesmo.”

 

 

 

 

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