Tem-se assistido nos últimos tempos à insinuação e culpabilização insistente da IA como a mui provável responsável pelo desaparecimento da humanidade.
As grandes corporações calculam que as multas decorrentes das suas ações abusivas serão insignificantes perante os lucros astronómicos que obtêm; emitem pedidos de desculpas falsos quando necessário e deixam que os seus exércitos de advogados minimizem os danos.
Contudo, mormente por parte daqueles que a vêm controlando e dela beneficiando, tem-se assistido nos últimos tempos à insinuação e culpabilização insistente da IA como a mui provável responsável pelo desaparecimento da humanidade, sabendo eles perfeitamente que a grande maioria das civilizações têm desaparecido por incompetência e ganância dos seus dirigentes, e que, a longo prazo, mais milhão ou menos milhão de anos, a civilização humana deixará de existir.
Recentemente veio a público o conhecimento de, para um projeto de data center, a Google ter eliminado centenas de milhares de árvores na Finlândia.
Segundo manchetes nos grandes meios de comunicação, a gigante tecnológica cortou “ilegalmente” 250 mil árvores, mas não foi só isso que realmente aconteceu. A Google eliminou 400 mil árvores (250 mil perto de uma cidade chamada Muhos e outras 150 mil nas proximidades da aldeia de Otanmäki) e, a não ser que os executivos da empresa acabem, de facto, por ir para a cadeia por isso, as suas ações não podem ser descritas, propriamente, como “ilegais”.
Segundo relatos, a Autoridade de Licenciamento e Supervisão da Finlândia ordenou à Google que suspendesse todas as “medidas que alterem significativamente o ambiente”, afirmando que “considerará os procedimentos de fiscalização e de multas” caso a megacorporação não cumpra a determinação. A Alphabet, empresa-mãe da Google, possui um património na casa dos quatro triliões de dólares; quaisquer que sejam as punições que a Finlândia venha a impor por estes atos de ecocídio, elas não terão qualquer efeito significativo sobre a Google.
As grandes corporações fazem este tipo de coisas o tempo todo. Calculam que as multas decorrentes das suas ações abusivas serão insignificantes perante os lucros astronómicos que obtêm; emitem pedidos de desculpas falsos quando necessário e deixam que os seus exércitos de advogados minimizem os danos. É por isso que a família Sackler ainda possui uma fortuna de milhares de milhões, apesar de todas as multas impostas à Purdue Pharma durante a criação da epidemia de opióides nos Estados Unidos.
Num estudo de Harvard de 2017, intitulado “A Epidemia de Opioides: Corrigir um Mercado Farmacêutico Falho”, pode ler-se:
“Embora tenham sido intentadas ações cíveis e acusações criminais contra a Purdue e seus executivos, as penas resultantes foram irrisórias quando comparadas com os lucros obtidos com a oxicodona de libertação prolongada. Em maio de 2007, a empresa — juntamente com o seu presidente, o seu principal consultor jurídico e o seu antigo diretor médico — declarou-se culpada de promover, de forma enganadora, a oxicodona de libertação prolongada como sendo ‘menos viciante, menos sujeita a abusos e desvios, e com menor probabilidade de causar tolerância e sintomas de do que outros analgésicos’. Como parte de um acordo judicial, a Purdue concordou em pagar 600 milhões de dólares ao governo federal e 20 milhões de dólares a 27 estados. Os três executivos aceitaram pagar 34,5 milhões de dólares em multas, mas evitaram a prisão. Um custo operacional.”
É assim que as coisas funcionam. A lei não existe, primordialmente, para proteger as pessoas ou o ambiente, mas sim para proteger os interesses do capital. Se destruísse um data center da Google, provavelmente seria acusado de terrorismo e passaria décadas na prisão; contudo, a Google pode destruir o ambiente à sua volta e sair impune, recebendo apenas uma ligeira reprimenda e uma multa simbólica. Se roubasse milhões de dólares ao seu empregador, seria preso por um crime grave contra a propriedade; mas, se o seu empregador roubar milhões aos seus colaboradores, precisava de ganhar uma ação em tribunal para recuperar o que lhe foi retirado.
Na escola, aprendemos que a lei existe para proteger as pessoas comuns de indivíduos mal-intencionados, mas isso não é verdade. No sistema em que vivemos, a lei existe para proteger precisamente os piores entre nós de todo o resto da sociedade. É por isso que vemos o nosso planeta a ser reduzido a pó e cinzas, sem outra razão que não seja o lucro dos acionistas.
Acabamos por acreditar que a única hipótese para a civilização humana sobreviver mais tempo dependerá sempre da boa vontade e do benefício de um pequeno grupo que controlará a catástrofe sempre iminente, que investirá todo o nosso dinheiro nessas tentativas.
A nós caber-nos-á desaparecer mais tarde ou mais cedo, tomarmos pílulas para trabalharmos o tempo inteiro ou para suportarmos condições adversas de temperatura, pressão, humidade, para dormirmos séculos, para deixarmos de comer refeições substituídas por comprimidos, para deixarmos de ter relações sexuais por serem muito desgastantes e darem muito trabalho, por alterarmos o nosso esqueleto para nos adaptarmos ao espaço e às várias gravidades, por clonarem a nossa mente a computadores, etc.
Que fará então esse muito pequeno grupo que decide por nós? Empalam-se humanamente uns aos outros, o que, convenhamos, até será difícil de fazer com os exoesqueletos que os manterão em pé.