Os Tempos em que Vivemos

Arte contemporânea

“Celebridades são pessoas que são famosas por serem famosas”


“Um bom livro é um livro que se vende bem por ser muito vendável”

 

As definições acima expressas pertencem a Daniel J. Boorstin na sua tentativa de compreensão sobre o que é a arte hoje e de como funcionariam os circuitos de atribuição do valor/preço da obra de arte. Curiosamente, embora irónicas, estas definições retratam na perfeição o mundo contemporâneo da arte, e não só.

Talvez com a rara exceção dos que pintando as suas mãos as espalmaram e imprimiram nas paredes das grutas (partindo do princípio que tal possa ser considerado arte e não um apenas simples gosto ou necessidade de expressão muito perto do impulso que as crianças têm em rabiscar paredes), o certo é que sempre existiram mediadores no campo da arte, quer através dos “patronos”, quer através das instituições políticas responsáveis pela cultura.

No caso dos “patronos”, cujos exemplos mais claros aparecem em Florença durante o Renascimento, tratava-se de uma mediação feita ao nível individual, porquanto eram os “patronos” que escolhiam, sustentavam e pagavam os artistas para os representarem a si, aos seus e aos seus bens e desejos, através de contratos onde eram incluídas cláusulas em que para além dos pagamentos, figuravam as datas de entrega dos esboços, das maquetas e do trabalho final, a colocação e posição do doador, a nomeação dos intermediários a quem cabia a fiscalização, os materiais empregues, as multas por incumprimento, e o muito mais que acabaria por constituir um minucioso caderno de encargos.

No caso das instituições políticas responsáveis pela cultura, cujo exemplo mais claro aparece em França após a abolição da monarquia, trata-se de uma mediação que começa a ser feita pelo estado, em nome de uma noção messiânica de reconstruir a sociedade desde as suas bases, para a criação de um “homem novo”, a fim de salvar o “povo” do abismo em que se encontrava após séculos de ignorância e superstição.
Daqui, o conceito francês de “cultura” estar ligado aos esforços que o governo fizesse para promover o conhecimento, melhorar as maneiras, refinar o gosto artístico e despertar as necessidades espirituais do povo. De certa maneira, “cultura” era algo que uma elite educada e no poder fazia, ou pretendia fazer, em favor de outros, neste caso do povo sem poder e sem educação. 

A finalidade era dupla:  ciar cidadãos leais à República e um património de França. E foi tão importante que, mesmo durante os anos entre 1815 e 1875, em que o regime mudou cinco vezes de autoridade, se manteve esse programa de desenvolvimento e disseminação cultural. Dá-se também o aparecimento do conceito de “património”, em que através de um programa cultural integrado se unificaram as tradições locais, costumes, dialetos e calendários herdados de séculos de fragmentação feudal, com vista à  constituição de uma herança nacional.

Hannah Arendt, preocupada com a diferenciação fundamental entre trabalho (work) e labor (labour), considerava que o trabalho (contrariamente ao labor que era a forma “natural” que permitia ao homem prover às meras necessidades da sua sobrevivência ao extrair da Natureza produtos prontos a consumir) era a atividade resultante da forma “artificial” com que o homem se relacionava com a Natureza através da fabricação.

O trabalho surgia assim como a atividade que iria permitir construir um Mundo durável (o Mundo como lugar artificial, construído pelas mãos humanas, por oposição à Terra como ambiente natural colocado à nossa disposição). Esta transformação que o trabalho aplica sobre o meio natural tem em vista o uso (ex.: cadeiras, mesas) e não o consumo (ex.: alimentos), o que faz que do trabalho resultem objetos e não produtos para consumo.

Nota-se em Arendt uma preocupação com a durabilidade que, contrariamente ao consumo, só o uso permite. Considera no entanto que há exceções, ou seja, que há alguns objetos do mundo que são fruto do trabalho, mas que não são destinados ao uso: as obras de arte, que são para serem contempladas. Há aqui uma relação de não uso, de conservação. Talvez por isso sejam as obras de arte os objetos mais duráveis do mundo, os mais mundanos (feitos para o mundo). Não são portanto para serem usados e consumidos de imediato. Daí considerar que um objeto é cultural dependendo da duração da sua permanência, e isto evidentemente para além do seu aparecimento se dever sempre a um ato de criação artística.

Estes conceitos como os de Hanna Arendt foram relativamente pacíficos, até à altura em que entraram na mediação os novos agentes do mercado.

Dizia A. Warhol que “o artista é alguém que faz coisas que não são necessárias”, acrescentando que “ser bom a negociar é a arte mais fascinante”. Estas duas afirmações deixaram de ser contraditórias no atual mercado de arte, porquanto trabalhar é arte, fazer dinheiro é arte, fazer um bom negócio é a melhor arte. Os novos patrões fazem e asseguram que as pessoas sintam a necessidade de possuir (e pagar) precisamente o que os artistas “querem” criar, pelo que a arte se transforma num bom negócio.

Descodificando: passam a ser os novos patrões os mediadores a ditarem quais serão as criações artísticas que terão mais procura, e qual o tipo de criação artística que será melhor para o negócio.
O que estes novos agentes do mercado pretendem é que os seus produtos sejam consumidos o mais rapidamente possível para assim obterem um lucro imediato.

O destino dos produtos culturais são hoje, conscientemente ou não, decididos pelas contas bancárias e possibilidades de crédito do número de clientes potenciais. A linha divisória entre a “arte com sucesso”, ou seja, a arte que desperte a atenção do público, e a “arte sem sucesso”, pobre ou ineficaz, que não consegue ser exposta nas galerias conhecidas e com clientela certa, é traçada tendo em conta as estatísticas das vendas, a frequência das exposições e os lucros obtidos.

Atualmente, os preços pagos pelas obras dependem da popularidade do artista (e relembremos o que diz Boorsin: “célebres são pessoas que são famosas por serem famosas”, “um bom livro é um livro que se vende bem, porque é muito vendável”), dos órgãos de informação (tv, jornais e agências responsáveis por promover o artista, levá-lo aos olhos do público), e dos nomes das galerias que as passam.

Mas não são só estas instituições que adicionam mais valor às obras. A instituição mais vocacionada para acrescentar valor é a da “vernissage”, que promove “events” de curta duração mas fortemente badalados, uma superprodução nos multimédia. 
Estes “events” envolvem muito menos riscos do que aqueles que as galerias correm, pois ao serem de curta duração não necessitam da lealdade dos clientes, ao que se acresce o facto dos produtos expostos serem logo para serem vendidos na ocasião, o que lhes diminui as despesas.

Segundo Boorstin, os “events” “atraem as atenções das massas porque as massas lhes prestam atenção, da mesma forma que vendem um enorme número de bilhetes porque há longas filas para esses bilhetes”.Cabe contudo a G. Steiner a melhor definição dos “events” ao dizer que eles são feitos para “terem o máximo impacto e obsolescência instantânea”.

Este “consumo imediato” está em contradição com a natureza da criação artística e com a finalidade da arte. Um mercado de consumo para satisfazer as necessidades de longo prazo é uma contradição!

Citando Kundera: “A missão da arte é ser uma segurança que temos para evitar que nos esqueçamos de ser”.
O problema é que há muitos que se “esquecem” de ser….

 

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